REPORTAGEM DE CAPA Um passado muito presente Traição, ciúme, grude, autoritarismo e outros traumas de amores antigos dificultam os novos relacionamentos TÂNIA NOGUEIRA A assessora de marketing paulista Manoela Caldas Simões, de 24 anos, teve vários namorados ciumentos. Um implicava com tudo o que ela vestia. Outro dava escândalos em público se ela olhasse para o lado. Nenhum aceitava que Manoela saísse sozinha com as amigas. Depois de algumas experiências desastrosas, ela decidiu nunca mais deixar que controlassem sua vida - e às vezes exagera na defesa de sua autonomia. O atual namorado, o videomaker André Lerro, de 30 anos, não tem nada a ver com os anteriores. Mesmo assim, ele vê o tempo fechar quando pergunta algum detalhe sobre uma saída da moça. 'Às vezes, o André está só querendo puxar conversa', reconhece ela. 'E eu já vou com três pedras na mão. Só baixo a guarda quando ele garante que não está com ciúme.' Manoela entrou na relação atual trazendo na bagagem as marcas e os traumas de seu passado afetivo. Volta e meia, sem perceber, cobra André pelos erros de seus antecessores. Isso não é justo, mas é comum. 'A gente acha que passa uma borracha e apaga tudo', diz Tânia Aldrighi, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. 'Não é verdade. As pessoas são resultado de suas experiências. Quando entram numa relação, levam com elas toda essa história, do relacionamento com os pais até o passado romântico.' Ocorre que o passado romântico de homens e mulheres é cada vez mais longo e recheado de experiências. Se antes era comum casar com o primeiro ou o segundo amor - e assim permanecer até a morte -, hoje não é raro quem tenha dez namoros e três casamentos. O último censo do IBGE confirma: entre 1984 e 2002, o número de recasamentos mais do que dobrou, passando de 47 mil para 95.300. Tânia assinala ainda que os jovens estão vivendo muito intensa e rapidamente as coisas boas e as ruins dos relacionamentos amorosos. 'Ninguém mais é obrigado a perpetuar um relacionamento ruim, mas, por outro lado, não se dá tempo para elaborar as frustrações.' Conclusão: as marcas se acumulam e, se não forem superadas, podem prejudicar relacionamentos futuros. Afinal, quem julga um parceiro recente, que mal conhece, com base no perfil do anterior, não está de fato enxergando a pessoa com quem convive no presente. 'Se você cria a expectativa de que algo vai acontecer, essa coisa pode acabar acontecendo', alerta o psicoterapeuta americano John Millikin, da Universidade Virginia Tech. 'É comum ver pessoas que estão sempre em maus relacionamentos e acham que isso se dá por falta de sorte.' Poucas coisas deixam mais seqüelas do que ser traído. Quando a infidelidade é sistemática, então, é muito difícil recuperar a confiança. Já se passaram muitos meses e três namorados, e mesmo assim a hostess paulista Andréa Paula Marin, de 25 anos, não se recuperou de um relacionamento com um homem 'galinha'. Ela conta que o namoro foi maravilhoso durante um ano e meio, mas aí degringolou. O rapaz morava em Campinas e passou a não telefonar para Andréa algumas das vezes em que vinha a São Paulo. Os amigos dela o encontravam na balada com outras garotas. 'Eu não queria acreditar', lembra. Até que Andréa o pegou no flagra. 'Sofri demais, passava mal só de pensar que podia encontrá-lo na rua. Demorei uns seis meses para conseguir namorar de novo', diz. 'Já tive três relacionamentos de lá para cá, e sempre com pé-atrás. Fico com medo. Não demonstro sentimentos', conta. Racionalmente, Andréa podia até saber que seus namorados seguintes eram fiéis e dedicados. Mas o trauma a fez associar entrega amorosa a sofrimento. 'O receio pode não ser de que o outro seja infiel', diz o psicoterapeuta Luiz Cushnir, autor de Os Bastidores do Amor. 'O medo é de amar, porque a vivência de entrega que essa pessoa teve não foi positiva. Ela não quer passar por isso novamente e se sente vulnerável quando expressa seus sentimentos.' ''Problemas pequenos podem se tornar enormes com o tempo'' Situações semelhantes podem causar diferentes tipos de trauma. Diante de uma traição, há quem se isole e quem resolva nunca mais ser fiel e descontar o 'chifre' em seus futuros parceiros. Também é comum transferir para o amor seguinte a 'culpa' pelas dificuldades do anterior. É um mecanismo perverso: 'A pessoa logo de saída acusa o atual pela traição do passado', aponta Cushnir. 'Tenta impedi-lo de trair, às vezes até traindo antes.' O analista de sistemas Paulo Habl, de 46 anos, acredita que sua atual mulher, a chef Silvana Domingues Vieira, de 36, seja muito diferente de sua ex. Mesmo assim, fica ressabiado diante de pequenas atitudes que o façam reviver o grande trauma de sua vida: não ter conseguido a guarda compartilhada do filho, hoje com 13 anos. Ele havia se mudado de Londres para Brasília especialmente para ficar perto do garoto. O desgaste da relação com a primeira mulher chegou a um ponto tão crítico que Paulo montou um site (www.pailegal.net) para pais separados. Hoje ele vive novamente na Inglaterra. Com a atual companheira teve Sophia, de 1 ano e 10 meses. 'Silvana é excelente, bondosa, linda', diz. 'Ainda assim me pego reagindo de maneira precipitada, arrogante', admite. 'Toda mulher tem um pouco essa coisa de que 'filho precisa é da mãe'. Eu não aceito isso. Se sinto que minha mulher ou minha sogra estão pensando assim, eu me fecho. Tenho receio de passar por tudo de novo.' Silvana conta que, depois que engravidou, descobriu um lado que não conhecia no marido. 'Ele tem muito medo de ser excluído da minha vida com a Sophia', afirma. 'Eu tento entender. Sei que é insegurança, e a gente conversa bastante.' Segundo o psicólogo Ailton Amélio da Silva, autor de O Mapa do Amor, é inevitável carrregar o que aprendemos de um relacionamento para outro. 'É como carro: se um dia você ficou na mão por causa da embreagem, toda vez que trocar de automóvel vai se preocupar com ela', brinca. Silva lembra também que problemas aparentemente pequenos podem se tornar enormes quando se convive com eles por muito tempo. 'Algumas coisas podem parecer menos graves para quem vê de fora', diz o psicólogo. 'Mas, para quem engole o sapo por muito tempo, tudo toma outra dimensão.' Ficar na balada até altas horas para agradar à namorada, por exemplo, não é o fim do mundo. Mas experimente-se cair na noite sete dias por semana - é dose. Pela profissão, o empresário Rodrigo de Sant'Anna, de 30 anos, sócio do clube de música eletrônica Manga Rosa, em São Paulo, está acostumado a ficar acordado até tarde vários dias da semana. Ainda assim, Sant'Anna diz que uma namorada 'baladeira' o deixou traumatizado. 'Eu gosto de sair, mas ela era demais. Não era capaz de ficar em casa, ler um livro, ver um bom filme', conta. 'O que me incomodava mais é que ela não queria ir embora dos lugares nem quando já estava o maior clima de fim de feira: meia dúzia de bêbados na pista, o barman evidentemente com sono e o DJ com cara de tédio.' A paciência de Sant'Anna se esgotou, o namoro acabou, mas sobraram as marcas. Quando sua atual namorada, a modelo Jaqueline Leiebelt Eberharb, de 19 anos, pede para ficar um pouco mais em uma festa, ele fecha o tempo. Não tem negociação. 'A gente já brigou várias vezes por causa disso', conta Jaqueline. 'Às vezes, estou gostando da balada e quero ficar. Quando ele resolve ir embora, não quer nem escutar. Parece trauma mesmo.' Sant'Anna reconhece a injustiça: 'Eu tento me controlar, mas quando vejo já estou falando de forma ríspida. Jaqueline não tem nada a ver com isso. O ideal seria apagar essas coisas da memória'. Se não é fácil se livrar de lembranças tão prosaicas quanto essa, imagine o que é lidar com a morte de alguém querido. Quem se envolve com um viúvo ou uma viúva deve estar preparado para enfrentar situações como as vividas pela personagem de Julia Lemmertz na novela Celebridade. Ela é apaixonada por Cristiano (vivido por Alexandre Borges), que ainda chora a perda da mãe de seu filho. Pagar essa dívida do destino é muito mais complicado do que acertar a conta alheia. 'Minha mulher era jovem, linda', conta o floricultor de Goiânia Edson Grisi de Melo, de 54 anos. 'Aos 47 anos, ela teve um acidente vascular cerebral e, seis meses depois, morreu de um aneurisma. Pensei até em fazer besteira, mas lembrei dos meus filhos', conta. Passados sete meses, Edson conheceu a advogada Divina Maria Ribeiro, hoje com 43 anos, e começaram um relacionamento. Mas o fantasma de sua primeira mulher estava sempre entre o casal. 'Eu falava demais nela', conta Melo. 'Dizia quanto ela era boa, como eu sentia saudade. A Divina, é claro, não gostava. Tivemos alguns atritos, mas chegamos a um meio-termo: eu falo menos e ela entende mais.' 'Não se deve ser paranóico, mas é bom ouvir a intuição' Segundo Ailton Amélio da Silva, nem sempre é possível zerar traumas de relações passadas, mas é possível melhorar a situação. A cicatrização das feridas pode acontecer até naturalmente. 'Já tive pacientes que encontraram parceiros ótimos depois de relacionamentos ruins e recobraram a confiança', conta. 'Só se deve procurar terapia quando os recursos próprios de recuperação não forem suficientes', aconselha. 'O importante é que o casal não deixe a situação ficar insustentável.' Millikin, da Virginia Tech, salienta que é preciso se abrir para novas relações, mas sem deixar de lado a intuição: 'Ninguém deve ficar paranóico, achando que tudo vai dar errado sempre. Mas é preciso lembrar que temos tendência a repetir padrões de relacionamento'.